10Mar2026

Compreender a evolução da situação no Médio Oriente

Este conflito é um evento sem precedentes, com potenciais repercussões no risco nacional em toda a região e para além dela. A intensidade dos seus efeitos dependerá da duração do confronto.
 

Compreender a evolução da situação no Médio Oriente

Os Estados Unidos e Israel lançaram uma ampla e sustentada série de ataques contra o Irão, afetando infraestruturas militares, instalações de inteligência e locais relacionados com os altos cargos de governação. O Irão respondeu com ataques de mísseis e drones direcionados a posições de Israel e dos EUA em vários estados vizinhos. Para além das bases americanas, o Irão também atacou portos, aeroportos e outras infraestruturas na região. Declarações públicas indicam que as operações poderão durar várias semanas, aumentando a incerteza quanto à duração e trajetória do conflito e aos seus potenciais impactos.

 

As consequências imediatas sentiram-se em toda a região. As perturbações nos principais centros do Golfo afetaram o transporte e o tráfego aéreo, à medida que as autoridades restringem o espaço aéreo e desviam voos. Organizações internacionais convocaram reuniões de emergência para avaliar a situação, enquanto dentro do Irão, ataques a altos funcionários criaram incerteza quanto à tomada de decisões e à estabilidade política.

 

Segundo Niels de Hoog, economista sénior da Atradius, "este conflito representa um evento significativo e sem precedentes, com potenciais implicações para o risco nacional em toda a região e mais além dela. Neste momento, a nossa hipótese de trabalho é que qualquer escalada regional, incluindo o encerramento temporário do Estreito de Ormuz, será provavelmente de curta duração, variando de alguns dias a várias semanas. Neste cenário, esperamos que o impacto económico global seja relativamente limitado."


 
O papel central do Estreito de Ormuz

 

A pressão sobre o Estreito de Ormuz é agora o fator central que determina o impacto desta crise em termos económicos e na cadeia de abastecimento. A combinação de escalada militar, avisos diretos aos navios e suspensão das operações por grandes empresas de transporte marítimo e energético levou a um encerramento efetivo. As autoridades iranianas dizem que o estreito está fechado e que o Irão atacará qualquer navio que tente atravessá-lo. Isto é importante porque Ormuz é o corredor energético mais importante do mundo, por onde circulam cerca de 20% do petróleo mundial e aproximadamente 30% do gás natural liquefeito. Qualquer perturbação neste corredor afeta rapidamente os preços da energia, os riscos de inflação e as cadeias de abastecimento mundiais. Os preços do petróleo já subiram para 80 dólares por barril e podem subir para 90-140 dólares, dependendo da duração da interrupção.

 

As empresas redesenham as suas rotas comerciais 

 

A redução dos fluxos através de Ormuz está também a afetar o transporte e a logística em geral. As companhias de navegação estão a abrandar ou a desviar os seus navios, as companhias aéreas estão a ajustar as suas rotas para evitar riscos regionais, e os principais centros de distribuição do Golfo estão a enfrentar restrições de conectividade. Estas alterações resultam em tempos de trânsito mais longos, custos mais elevados e maiores necessidades de capital circulante para indústrias sensíveis ao tempo, como a eletrónica e os componentes automóveis. Com grande parte do comércio entre a Ásia e a Europa a depender destas rotas, qualquer perturbação prolongada teria grandes repercussões nas cadeias de abastecimento que dependem de operações just-in-time.

 

Neste sentido, Niels de Hoog salienta que "não esperamos que o Irão consiga manter o estreito fechado por um período prolongado, pois é muito provável que uma operação marítima internacional liderada pelos Estados Unidos acabe com o bloqueio com relativa rapidez. Um encerramento prolongado também iria contra os próprios interesses do Irão, pois bloquearia as suas vitais exportações de petróleo para a China."


 
O cenário base da Atradius: conflito de curta duração

 

O cenário base da Crédito y Caución prevê um conflito de curta duração seguido de um regresso gradual à diplomacia, incluindo uma nova tentativa de negociações nucleares. Segundo De Hoog, "o Irão está muito isolado e teria dificuldade em manter um confronto prolongado. Um encerramento prolongado do Estreito de Ormuz também afetaria gravemente a sua frágil economia, perturbando as exportações de petróleo essenciais para a China e aumentando as pressões sociais internas. As recentes ações de alto risco dirigidas contra os estados do Golfo parecem visar principalmente a criação de uma vantagem política para regressar às negociações. Uma escalada significativa seria contraproducente, pois poderia levar os estados do Golfo a voltarem-se ativamente contra o Irão."

 

Num cenário de conflito breve, o impacto económico nos estados do Golfo continua limitado, embora as perturbações sejam inevitáveis. Devido ao bloqueio eficaz do Estreito de Ormuz, os estados do Golfo não conseguem beneficiar do aumento dos preços do petróleo e as suas economias não petrolíferas estão sob pressão temporária devido ao encerramento do espaço aéreo e às perturbações no turismo, logística e atividades de reexportação. 

 

Graças às suas grandes reservas internacionais e grandes fundos soberanos, a maioria das economias do Golfo consegue absorver uma perturbação que dure algumas semanas, com um impacto médio estimado no crescimento de cerca de meio ponto percentual.


 
Os mercados mais vulneráveis

 

O Qatar é o mais exposto, pois todas as suas exportações de gás natural liquefeito têm de transitar pelo Estreito de Ormuz. Esta vulnerabilidade explica a sua decisão preventiva de suspender temporariamente a produção de GNL após os recentes incidentes de segurança. 

 

Omã parece menos vulnerável porque o seu principal porto, Duqm, fica fora do estreito, embora ataques recentes de drones e incidentes no Golfo de Omã evidenciem riscos adicionais. Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita podem desviar parte das suas exportações de petróleo através de oleodutos, embora isso apenas mitigue o impacto parcialmente.

 

Para os países fora da região que dependem fortemente da importação de petróleo e gás, o principal canal de transmissão é a subida dos preços da energia. Muitas destas economias estão mais expostas financeiramente do que os estados do Golfo e Israel. As economias asiáticas, incluindo a China e a Índia, são particularmente sensíveis, pois dependem fortemente do trânsito físico de petróleo e gás através do Estreito de Ormuz e seriam diretamente afetadas por qualquer perturbação prolongada.


 
Cenário negativo: escalada prolongada

 

Um cenário negativo envolvendo uma escalada mais prolongada do conflito não pode ser descartado. Ao contrário da operação de 2025, que se concentrou em limitar as capacidades nucleares do Irão, os objetivos atuais estendem-se à mudança de regime e ao desmantelamento do arsenal de mísseis balísticos iraniano. Esta dinâmica aumenta o sentido de vulnerabilidade estratégica do Irão e a probabilidade de mais retaliações.


 
Principais efeitos de uma escalada prolongada

 

Uma escalada adicional poderá significar uma maior dependência das milícias proxy em toda a região e de ataques a instalações de petróleo e gás vizinhas, representando um risco de danos duradouros à capacidade de produção regional e mundial. Relatórios recentes de ataques de drones a uma refinaria de petróleo na Arábia Saudita e a uma fábrica de GNL no Qatar indicam que esta possibilidade se tornou mais plausível. Estas ações também aumentariam a probabilidade de retaliação contra a própria infraestrutura energética do Irão.

 

Neste cenário muito mais adverso, as estimativas sugerem que os preços do petróleo poderão subir até 130 e 140 dólares por barril. Embora seja pouco provável que o Irão mantenha o Estreito de Ormuz fechado por um período prolongado, poderá continuar a perturbar o tráfego marítimo dentro e fora do estreito, criando instabilidade persistente nos fluxos energéticos mundiais.


 
Algumas economias emergentes podem estar sob pressão financeira 

 

Nestas condições, o Bahrein seria provavelmente o primeiro estado do Golfo a sofrer pressões financeiras devido à debilidade das suas finanças públicas, às suas reservas limitadas e a uma forte dependência das receitas do petróleo. Outras economias do Golfo também estariam sob pressão sustentada, pois as perturbações na logística, no turismo e na atividade de exportação durariam mais tempo.

 

As economias asiáticas, incluindo a China e a Índia, são particularmente vulneráveis, na medida em que cerca de 80% do petróleo e gás que transitam pelo Estreito de Ormuz têm como destino à Ásia. Um aumento prolongado dos preços afetaria também outros mercados emergentes, com grande dependência das importações de energia e margem fiscal limitada. Mesmo que os produtores da OPEP aumentassem a sua produção, o alívio seria limitado se o petróleo não pudesse chegar aos mercados de exportação.


 
Monitorização e adaptação

 

O impacto na economia e nos mercados globais dependerá, em grande medida, da duração e intensidade do conflito. Apesar da situação, na Crédito y Caución continuamos a operar normalmente em todo o Médio Oriente, garantindo cobertura e apoio aos nossos clientes e parceiros. Monitorizamos a evolução do risco associado às linhas de crédito dos nossos segurados na região, acompanhamos de perto os desenvolvimentos e recolhemos informações de múltiplas fontes para garantir que as nossas respostas se mantêm precisas e específicas para cada contexto.

 

Sobre a Crédito y Caución


Crédito y Caución é uma das marcas líderes em seguro de crédito interno e de exportação em Portugal, com uma quota de mercado de 22%. A Crédito y Caución contribui para o crescimento das empresas, protegendo-as dos riscos de incumprimento associados a vendas a crédito de bens e serviços. A marca Crédito y Caución também está presente em Espanha e no Brasil. No resto do mundo opera como Atradius. Somos um operador global de seguro de crédito presente em mais de 50 países. A nossa actividade consolida-se no GCO.
 

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